A garota do casaco vermelho

Eu costumava sair de casa sempre às 18:35 h, um dia me atrasei, tive que sair às 18:52. Caminhei lentamente aproveitando o ar gelado, observando os efeitos causados pelas luzes amareladas nas árvores que já há um mês sofriam os efeitos inverno.
O estava chão úmido devido à chuva que caíra na manhã e em metade da tarde, mas o céu se mostrava estrelado e a lua se exibia graciosa como se soubesse que aquele era um dia diferente.
Avistei a ponte onde eu sempre parava para observar a paisagem e o céu, mas hoje ela estava ocupada por um ponto vermelho. Torci para que fosse embora logo e segui me aproximando.
Era uma moça de cabelos negros e bochechas rosadas, abraçada a si mesma, com seu casaco vermelho e seus jeans surrados. Ela olhava o horizonte tão compenetrada que não viu quando me aproximei.
-Olá. – falei, apenas para deixá-la ciente da presença de outra pessoa.
Ela me olhou e sorriu. Seus olhos escuros refletiam as luzes fracas dos postes atrás de mim. Seu rosto era delicado, mas eu soube, no momento que nossos olhos se encontraram, que ela não era uma dessas mulheres que se deixam guiar pelos outros.
Ela nada falou, apenas voltou a observar o horizonte. O lago, lá longe, iluminado levemente por uma única luz, estava coroado pela bela cena de uma criança e um cachorro brincando; as colinas, já escuras, apresentavam apenas seu contorno escuro; o vale abaixo de nós era disputado por pequenos animais que despertavam para a noite ou por aqueles que despediam-se do dia.
Não sei quanto tempo ficamos ali em silêncio e, pela primeira vez, algo me interessava mais que a paisagem. A garota do casaco vermelho me olhou mais uma vez antes de sair dali calmamente acenando um adeus sem nada dizer.
Penso em como seria sua voz ao vê-la afastar-se, quais seriam os seus segredos, seus gostos, que livros ela gostava de ler, que músicas escutava sozinha em seu quarto.
Imaginei-a cantando baixinho uma música qualquer em seu retorno para casa, mas em minha imaginação ela era uma fada, com asas em vários tons de verde, ela traria a primavera quando a hora chegasse e tornaria todo o vale florido, então dançaria com as borboletas pelos bosques para celebrar.
Voltei para casa imaginando-a segurando minha mão, como se guiasse uma criança em segurança, falando sobre a natureza, coberta em meu casaco, porque nessa época é muito frio para que fadas andem por aí desprotegidas.

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