O Passageiro

Liz olhou-se no espelho uma última vez e suspirou, há dias estava sentindo algo como um arrepio permanente no topo da espinha, como um aviso, mas um aviso de quê?
Ela saiu de casa, andando lentamente, o único barulho nas ruas vazias era o som de seus sapatos, que ecoava ao longe.
Em algum lugar um cachorro começou a latir, então ela apressou o passo.

Sentou-se no ônibus vazio, em 30 minutos chegaria à festa, poderia beber e esquecer a semana terrível que tivera.Recostou-se no assento e não conseguiu conter outro suspiro. Olhou pela janela, passavam pelas árvores e casas rapidamente, fazendo com que elas parecessem borrões fantasmagóricos.

Um garoto sentou-se a seu lado, devia estar muito distraída, nem o vira entrar no ônibus. Ela olhou de relance para a camiseta laranja dele, ele devia ter a sua idade, talvez um pouco mais.
Depois de alguns instantes a voz dele, quente como um sussurro, invadiu, de forma agradável, seus ouvidos:
– Vai para a Festa da Luz Negra?
– Sim e você?
– Não, eu vou para casa.
Ela virou-se para encará-lo, quem preferiria ficar em casa num sábado à noite? Todos estariam na festa.
Ele tinha cabelos compridos, um leve sorriso e olhos que eram de um azul tão gélido que fizeram com que sua pele se arrepiasse.
– Qual o seu nome?
– Liz e o seu?
– Flauros – ele estendeu a mão para ela, que exitou por alguns momentos, mas estendeu a mão.
Seu toque era como um veludo, tão leve e macio…
De alguma forma ela soube que ele a desejava, talvez porque também o desejava. Ele queria marcá-la para sempre, ela sabia, ela queria, mais que tudo, que ele a marcasse de maneiras nada delicadas.
Quando ela olhou novamente em seus olhos sua mente não registrou mais nada além de seu belo rosto. Queria, não, precisava tocá-lo.
Eles permaneceram em silêncio se encarando e só romperam contato quando ele se levantou e, mais uma vez, estendeu a mão a ela. Um convite.
– Vamos?
– Ela segurou sua mão e…

Seu corpo doía, ela não lembrara como chegara ali, mas sentia muita dor em suas pernas, braços…
Então sentiu-o envolvendo-a em um abraço, ele escorou sua cabeça no ombro dela e sussurrou:
– Precisamos ir ou perderemos a chance.
– Onde estamos? – ela sentiu dor na boca e um gosto estranho que parecia sangue.
– No fim, amor.
– Fim?
– Vamos, já estamos quase atrasados.
– Atrasados para quê? Para onde vamos?
– Em frente.
No silêncio da noite, um grito ecoou entre os prédios.
No dia seguinte a polícia informaria sobre Liz, de 23 anos, que saíra para ir a uma festa, mas fora encontrada bem longe do local, ela se mutilara e depois se jogara do alto de um prédio de 9 andares, assim, sem explicação.

No jornal apareceria o depoimento do cobrador:

Ela entrou sozinha, estava toda bonita, acho que ia para uma festa, sabe, então ela ficou um tempo olhando pela janela, mas, de repente, ela olhou pro lado e começou a falar sozinha, olhando para o nada, sabe, algumas vezes ela ficava em silêncio, como se encarasse alguém, então ela desceu na parada da frente da loja de informática e foi isso.”

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