Retrato

Eles estão espalhados pela casa dos meus pais, os retratos, desde aqueles em que uma miniatura de mim ri de alguma arte feita até aqueles de uns meses atrás.
Aquele mini eu nem sei quem é, quem foi. E esse eu de agora? Muito menos.
Os dias se mostram traiçoeiros, as horas de sono são tumultuadas. Adicionam, então, olheiras profundas em mim, marcas profundas das noites que não recuperarei.
Penso bem se algum dia recuperarei algo. Um segundo passado não pode ser reavido. Lamento.
Então os dias só diferem pelos números, mas eu não percebo. O rosto muda lentamente, eu nem noto. O corpo ainda é meu, não o reconheço.
Quando vejo os retratos só consigo reconhecer aqueles que nunca mudam. Meus olhos. Escuros, mesmo em ambientes claros, de um marrom que recebe uns tons da terra avermelhada de onde eu nasci. Ou é ilusão.
Aquela boca se parece com a minha, aquelas olheiras, aquelas orelhas, o nariz que eu conheço bem por sua cicatriz interna, as sobrancelhas negras e bagunçadas que são herança de meu avô paterno.
Mas são os olhos, sempre eles que – mesmo em meus sonhos – seguram minha vida, minha alma e expressam o que meus dedos e minha mente não conseguem reproduzir.
Quem viveu naquele tempo? Quem era eu no segundo que foi tirado aquele retrato?
Não sou mais, que como o tempo, não tenho volta e sigo mudando. Exceto eles.

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