Resenha: Quando as Sereis Choram, de Mirella Ferraz

Existe um livro sobre uma mulher que acreditava em sua liberdade e que se permitiu amar. Existe um livro que mostra como uma pessoa que apenas vivia sua vida acabou se tornando um símbolo. Existe uma mulher que escreveu um livro que é mais que o que está escrito, ela escreveu sobre a lenda de uma mulher, uma amante, uma sereia, uma santa.

(Imagens de Sereias na Igreja de São Pedro, Recife e na Igreja de São Francisco, João Pessoa.)

Quando as Sereias Choram reúne tudo o que uma história precisa para entrar no coração dos leitores: amor, amizade e ação. Suas páginas nos levam a vários mundos e nos fazem pensar em como o mundo pode ser visto de diferentes perspectivas. Ele é, como pode-se observar nas notas de rodapé, um livro que denotou muita pesquisa, muito envolvimento pessoal e muito carinho, que transparece em cada palavra nesta obra adorável.
O livro de Mirella Ferraz é impactante, envolvente, feminista e com sua narrativa detalhada em nada é enfastiante, pelo contrário, ela sabe narrar como uma sereia sabe nadar.

Mas antes de falar mais sobre o livro, quero mostrar a Mirella, que é uma sereia de verdade!

Voltando ao livro (*suspiro*).
Quando as Sereias Choram conta a história de Liban, uma menina que nasceu no mar, filha de um viking e de uma mulher bretã, que encontrou o amor nos braços de seu inimigo, nas ondas do mar, no canto de uma Sereia, nos olhos de Ulisses e na devoção de um monge.

Liban foi criada um tio que a odiava, cuja mãe falecera e cujo pai detestava por ser um viking que destruíra a aldeia da mãe e sequestrara esta e, por anos, abusara dela. Mas não é apenas isso. Em um mundo em guerra entre os pagãos e os cristãos, não apenas pela sobrevivência de seus povos, mas pela sobrevivência de suas culturas, Liban encontrou forças, guiada -inicialmente- pelo amargor que a mãe nutria por ambos os lados, para ser apenas Liban, uma mulher que em nada era inferior aos homens, cuja mente era livre e cujo coração nadava pelos oceanos muito antes que ela mesma pudesse fazê-lo.
Ela foi mulher, sereia e santa, uma amostra de que é possível estar em paz com o mundo, quando encontramos nossa essência. Aqui os mistérios dos mares e dos corações transparecem como as águas límpidas do mar e atordoam como a água que invade os barcos nas tempestades.

– Gostaria de saber por que o corpo feminino é visto como um pecado para vocês, cristãos – ela prosseguiu com a provocação.
– Porque foi dele que o pecado nasceu. Foi através de Eva…
– Acredita mesmo nisso? Acredita que no corpo da mulher mora o pecado? Que a mulher é um ser impuro e seu corpo deve ser coberto porque é sujo?
– Não… Não Liban… mas pode ser suja a mente dos homens que olham para o corpo de uma mulher.
– Então para a fraqueza masculina não ser descoberta, culpam as mulheres e as cobrem? Há algo errado aí, não acha? Não estão punindo quem é inocente nisso? Além dos homens inventarem deuses masculinos para seus deleites, ainda inventam demônios femininos e pecados originais para as mulheres, com o intuito de sempre a inferiorizarem e de arranjarem desculpas sagradas para suas subjugações? Pois eu lhe digo, Beoc, não há nada de errado com nosso corpo, não há nada de feio ou impuro.

(página 362, capítulo 48)

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