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Temos o costume de criar nossas meninas chamando-as de princesas, contando-lhes histórias sobre princesas que só são felizes quando encontram seus príncipes (se acha que estou brincando me conte uma história de princesa que não termine no ‘e viveram felizes para sempre”). Poucas são as histórias sobre verdadeiras heroínas. Há essa visão geral de que uma mulher em apuros precisa ser salva por um homem.

Permita-me adicionar ao parêntesis do parágrafo anterior que elas são realmente ridículas! Beijar um sapo! Ser acordada com um beijo! Ser ressuscitada com um beijo!

Desde pequenas nos qualificam como isso e aquilo e predeterminam, baseado em nosso gênero, qual será nosso futuro e nossos gostos; escolhem por nós que cores gostaremos (tons de rosa), quais roupas serão nossas favoritas (vestidos floridos), que nosso coração pertencerá a um belo rapaz que nos fará muito felizes e que só seremos realmente felizes quando formos lindas, magras e estivermos nos braços do homem de nossas vidas.

Nos dizem para nos comportarmos como moças quando somos apenas crianças. Nos dizem para nos comportarmos como mulheres. Nos adultizam para que possamos ser uma ideia maluca criada por alguém. Não importa se somos gentis, inteligentes, bem resolvidas, divertidas, não, nós precisamos ser mulheres que saibam se portar apropriadamente. Uma mulher com três diplomas não é bem vista se não for elegante e tiver uma postura recatada. Nos condicionam à inferioridade de qualquer forma que possam.

Aprendi cedo que perguntar se me era permitido só me levaria à espera e à frustração. Uma mulher não pode se dar ao luxo de esperar que decidam por ela, ela tem que fazer o que quer, o que precisa, foi o que eu aprendi.

Se observarmos com cuidado não há um posicionamento que não vá ser criticado. É difícil. A pior parte ainda é a crítica que é dada “por amor”. Ela não é uma crítica feita com carinho e cuidado, não é algo dito com olhares e palavas amorosas. É algo que é dito na melhor das intenções para nos tornar algo que não somos. “Mas é porque eu te amo”. E ainda perguntam como tantas mulheres acabam em relacionamentos abusivos.

Toda vez que vejo uma criança, seja ela um bebê ou uma menina de 10/12 anos, vestindo roupas de oncinhas, me pergunto: por quê? Coisas desse tipo foram postas em lingerie, tidas como algo sensual, voltado para a atração por um sexo selvagem. Um estímulo visual. Então uma mãe que acha “tão bonito”, coloca algo que é prioritariamente dirigido ao estímulo sexual em sua filha. Por quê?

Outro dia estava analisando falácias religiosas e eis que percebi: Deus fez um paraíso de inocência e uma única árvore era proibida. Eva, ao comer a maçã, adquiriu conhecimento, consciência de seu próprio corpo, de sua existência e cobriu-se porque não queria ser vista nua. Sendo o paraíso a ignorância quem é que quer viver nele? Eu não.

Acho imensamente engraçado quando sabe-se que algum acidente aconteceu com uma criança enquanto ela estava em posse do pai. A primeira pergunta feita é sempre: onde estava a mãe? Para quê? Já estava ali o pai? Por acaso a criança é o Ligeirinho que precisa de duas pessoas olhando-a 24/7? Um homem é assim tão incapaz que não possa sequer saber o que fazer com sua própria prole?
Uma curiosidade sobre o mundo: não importa o nível de instrução, se uma mulher é vista desacompanhada (no caso sem um homem do lado), ela é vista como obrigatoriamente alvo de comentários na rua.
Mais uma: se um homem ofende uma mulher e em seguida um homem (pode ser, pai, amigo, irmão, conhecido, enfim…) chegar perto dela em seguida, o homem que a insultou se desculpará com o outro homem por ofender a fêmea dele. Porque, obviamente, uma mulher não pode pertencer a si mesma.

Ainda: caso uma mulher manifeste que não está interessada em um homem (e não lhe dê um motivo “plausível” – leia-se tenho namorado), ela é tida como alguém que “fica fazendo charme”.

No filme “As Sufragistas” há uma frase que tem mexido com minha cabeça: “Nós quebramos, nós queimamos coisas porque guerra é a única língua que os homens conseguem entender”.

Em um passo ousado para mim mesma: o feminismo negro é uma vertente importantíssima à qual deveria ser dada mais voz. Adicione ao peso de andar na rua sendo mulher (com o padrão de beleza, o de comportamento, com o ‘carimbo’ de pertencimento aos homens, etc) a todo o preconceito, à falta de representatividade, à uma desgastante e insistente condição de inferioridade. Toda vez que começo a pensar nisso me falta o ar porque ser mulher já é difícil.

Eu quero ver representações de mulheres que não dependam de homens, de mulheres que sejam fortes por si mesmas e tenham empatia pelas demais, preciso de bonecas negras, mas não essas falsas de faces europeizadas, preciso ver mulheres que não tenham cintura fina e peitos e bunda gigantes, preciso ver mulheres que sejam como eu, como minhas amigas, minhas vizinhas, minhas familiares. Preciso ver mulheres de lábios largos, olhos castanhos, cabelos cacheados e lindamente revoltos, preciso ver mulheres que sejam como nós, porque pode parecer besteira para algumas pessoas, mas são as pequenas coisas que, aos poucos, mudam o todo.

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