A leoa atrás da penteadeira 

 

Em um quarto branco simples, decorado com bichos de pelúcia, vivia Clarice. No dia em que Clarice completou 13 anos sua mãe resolveu que era hora de jogar  – todos – os seus bichos de pelúcia fora. Clarice chorou tanto que pensou que suas lágrimas eram as culpadas de haver tanta chuva. Em silêncio, no mais completo segredo, ela conseguiu roubar uma leoa de pelúcia antes que sua mãe levasse os bichos.
– É hora de crescer – dizia sua mãe – pelúcias são coisas de criança, agora você é uma moça.
O problema é que Clarice não se sentia assim tão moça. Na escola, todas as meninas estavam interessadas em rapazes, em ficar bonitas e coisas assim, mas Clarice queria brincar, não via graça nos meninos remelentos de sua classe, nem nos meninos remelentos que fingiam não ser remelentos das classes superiores.
Como resultado à sua resistência a ser menina-moça, muitas meninas se afastaram dela e agora a usavam como chacota. Clarice começou a se esconder na biblioteca, onde a Senhorita Oliveira lhe permitia ler atrás do balcão.
Ao chegar em casa ela fechava a porta do quarto e pegava a leoa atrás da penteadeira. Contava-lhe sobre a escola, sobre as pessoas, sobre a Senhorita Oliveira – que sempre tinha algo gentil a dizer.
Certo dia a mãe foi chamada na escola. Clarice tinha notas boas, não fazia nada de errado, nem ao menos respondia quando a chamavam de criancinha, bebê da mamãe.
Ela pediu para ir ao banheiro e foi espiar pela janela do diretor. Sua mãe segurava um papel e chorava. Sem saber o que fazer Clarice voltou à sala e não conseguiu se concentrar em mais nada até o fim do dia.

O papel que sua mãe segura, ela viria a saber uns anos depois, era uma redação das que ela tinha que escrever toda semana. Aquela redação que deixaria sua mãe um pouco mais gentil, que tornaria a mãe sua amiga, finalmente. Na redação dizia:

Mamãe jogou minhas pelúcias fora. Quero morrer. Júlia e Beatriz já não andam mais comigo porque são mocinhas-quase-mulheres, Augusto chama-me de bebê chorão – mesmo que nunca me tenha visto chorar. Não sei que mal há em não querer crescer, pelo contrário, todos estão crescendo e tornando-se maldosos, tratando-se desrespeitosamente. Quando éramos todos crianças podíamos brincar juntos, não nos importávamos com que roupas o outro usava, se os sapatos estavam limpos ou sujos, se os meninos olhavam para as meninas, nem pensávamos em maquiagens e em regimes. 
Em casa mamãe está sempre preocupada, papai está sempre zangado e cansado. Se isso é ser adulto eu não quero. Mamãe sempre fala das vizinhas, de seus casamentos ruins, de seus filhos que causam problemas. Eu não quero casar e ter filhos, quero poder ficar para sempre lendo atrás do balcão da gentil Senhorita Oliveira. 
Se ser adulto fosse algo como ela, a Senhorita Oliveira, eu adoraria. Ela sempre tem uma palavra gentil, um elogio e todos são belos e agradáveis para ela, mesmo as pessoas que mal respondem seu sorridente olá. 
Quando mamãe jogou minhas pelúcias fora, roubei a Leoa e escondi-a atrás da penteadeira. Acho que ela salvou minha vida. Posso conversar com ela e ela sempre acha meus bordados bonitos. Mas mamãe diz que ainda preciso melhorar muito para ser uma esposa (não posso lhe dizer que não quero ser uma, pois ela me bateria nas mãos, como quando falei que não queria aprender a cozinhar). 
Espero que quando eu crescer eu possa seguir sendo uma criança, pois não há graça alguma em ser um adulto.

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