Gatilho: ficção que poderia ser real

O primeiro texto de terror de Outubro está um dia atrasado, eu sei e peço desculpas. Antes de ler o texto certifique-se de que tem estômago para isso. Sei que o que se espera de textos nessa época são um terror de monstros mascarados, de bruxas malvadas e lobisomens sanguinários, mas o homem é um monstro que destrói sua vida e as daqueles que o rodeiam. O texto de hoje é ficção, qualquer semelhança com a realidade é um acaso, ou talvez não.

[TW/GATILHO: agressão à mulher]

 

 

 

Nas margens de São Paulo, em uma casa de madeira na terceira rua, à esquerda da faixa, vivia Lucas, 13 anos. Chegava em casa 13:22, um pouquinho antes de a mãe sair para o segundo emprego. Maria Lúcia, a mãe do Lucas, trabalhava das 14:30 às 22h limpando o shopping Independência; da meia noite até 8h ela era responsável por manter os quartos do motel apresentáveis (se o lençol não parece sujo, é só estender direito).
Quando Lucas tinha 7 anos seu pai foi preso. Lucas não lembrava muito bem, mas tinha nas costas uma cicatriz e sabia que ela tinha algo a ver com aquilo. Um dia Lucas ouviu a vizinha falando que estava de sempre de olho para que “aquele traste” não voltasse para pegar o menino. Se perguntasse à mãe o que acontecerá ao pai, ela responderia que ele era um bandido, um covarde e mudaria de assunto. Sempre assim. Pelas marcas no corpo de sua mãe, ele sabia que não queria ver o pai.Lucas ia para a escola todos os dias, fizesse chuva, fizesse sol. Não era o melhor aluno, mas a mãe sempre dizia que se ele não tirasse pelo menos um 8, ia ter que arrumar emprego.
Naquela a semana a mãe andava estressada, mas ela era mãe e ele era filho, ele tinha a obrigação de contar seu problemas e ela tinha a obrigação de escondê-los, afinal, ela era adulta e adultos têm que se virar sozinhos.
Na quinta, dia 15, a mãe não iria para casa dormir, pois uma vendedora a contratara para passar a manhã cuidando de seu filho, pois a babá teria que ir no médico. Lucas pegou a sacola com a muda de roupa e foi a caminho do motel, na saída pegou umas bolachas porque a mãe provavelmente estaria com fome.
Lá na frente estava o carro da polícia e quando Lucas se aproximou não queriam deixá-lo passar. Mostrou a sacola e falou que a mãe trabalhava ali, que estava esperando a roupa e a comida para ir pro outro emprego.
É bem sabido que a polícia não tem pena de moleque preto, então quando o policial mandou o Lucas ir sentar ali do lado e perguntou se ele queria água, ele viu que tinha algo errado.
Toda tarde, depois de fazer os temas, o menino ia pro campinho de futebol que tinha lá embaixo. No caminho ficavam uns moleques da idade dele, mas que se fingiam de adultos porque tinham permissão da chefia pra andar armados. Ninguém ali tinha medo deles, cada um no seu canto, eles até ajudavam uma velhinha a atravessa a avenida e a carregar sacolas vez ou outra, mas com o Lucas eles implicavam. Lucas era alto pra sua idade, era bom pra organizar as coisas, pra fazer contas, então eles chamavam o menino e davam várias contas pra ele fazer. Ele sabia que era do lucro das drogas, mas ele não podia dizer não e a mãe não podia saber que ele dizia sim.
Vida de moleque não é fácil, não quando o moleque cresce na periferia. Periferia, palavra bonita pra falar que o cara é fodido, sabe.
Lá no motel, sentado do lado de uma viatura, sendo ignorado por todo mundo, Lucas ouviu que a ambulância estava chegando. Uma pessoa ou outra olhava pra ele com pena, as outras ou nem o viam ou o olhavam como se fosse um tatu escorrendo pelo nariz.
Saiu a mãe lá de dentro, andando meio torta, machucada, sangrando e quando viu o menino ali parado começou a chorar. Logo atrás vinha o policial que deixara o menino ficar ali, carregava algemado aquele pai que ele jamais queria ter tido.

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