2ª Semana do Terror: Professora Juliana

Hoje é o dia da professora e eu estou com meu texto de ‘terror’ atrasado (pontualmente atrasado, se me permitem dizer). Depois do texto da semana passada eu me inspirei em continuar a ideia dos terrores do dia a dia. Caso alguém que passa por aqui ainda não saiba eu vou ser/estou sendo/estou estudando para ser professora. Ensinar é uma coisa muito gostosa, que me enche de satisfação e de sorrisos, mas também é assustador, sufocante e gera choros semanais. Apesar de ainda estar na faculdade eu já tenho conhecimento de alguns momentos difíceis da vida de educador, conheço porque minha tia é professora, porque tive cerca de 60 professoras na escola pública, cerca de 30 nos cursinhos e já tive 30 professoras na universidade. Sei porque conversei e converso com todas elas, sei porque leio os desabafos de tantas outras por aí.
Quero parabenizar todas elas pelas lutas diárias que só elas sabem o quanto as machuca, o quanto as afeta. Quero agradecer o apoio que sempre tive de minhas professoras, os sorrisos tranquilizadores e os abraços nos tempos críticos de vestibular em que a gente se encontrava e acabávamos chorando juntas no banheiro, quero agradecer a paciência, os exemplos de dedicação e determinação.
O texto de hoje é sobre alguns medos meus – e de muitas outras educadoras, é sobre as coisas que sei que vou enfrentar na jornada que escolhi, sobre a parte faz muita gente desistir.

 

 

Juliana acorda cedo todos os dias. 7 horas ela tem que estar na escola. Quando entra na primeira sala, às 7:30, precisa controlar a algazarra, mas também precisa garantir que quem está meio dormindo acorde.
Juliana é uma moça organizada, tem sempre um pouquinho a mais de aula preparada (vai que rende, dessa vez).
Terça-feira, 10:45: a aula do terror. Toda semana é a mesma coisa. Quando ela entra na sala ainda tem alunos copiando as respostas do tema do colega. Tem um menino que está repetindo aquela série pela terceira vez. Deve terrivelmente chato pra ele, mas ele não facilita pra ela. Ele gosta de pregar peças, fazer brincadeirinhas. Não é esse o problema real, o problema é que ela tem 45 minutos por semana pra tentar ensinar alguma coisa pra 30 pessoas que não querem aprender.
Naquela escola não existe computador disponível pros alunos, não dá pra exigir trabalho digitado já que muitos também não têm computador em casa – a era da tecnologia, eles disseram. Na outra escola estragou o xerox e ninguém fez o tema – mesmo que o tema nada tivesse a ver com o xerox. Também teve a única TV da escola que explodiu e agora ela não vai poder passar um vídeo que talvez interessasse aos alunos. Semana passada um pai veio à escola e ficou mais de 30 minutos gritando com ela, pois ela o havia expulsado da sala por continuamente jogar bolinhas de papel nela. Ela tem alguns alunos que não têm o quê comer em casa, então não se concentram nas aulas – na semana que vem não vai ter merenda e eles provavelmente não vão ter nada pra comer.
Todas as noites quando chega em casa, Juliana começa a corrigir os temas, ou provas, ou trabalhos. A casa está uma bagunça e fazem 3 meses que ela está com uma dor estranha nas costas. Toma um relaxante muscular, faz a janta e liga a TV.
Agora o governo decidiu congelar os investimentos em educação pelos próximos 20 anos. Aquela sala que tem goteiras vai ter esperar. Juliana lembra de uma escola que saiu no jornal que é toda feita de barro. Do dinheiro da merenda que nunca é suficiente pra todo o mês (a merenda são umas bolachinhas e, com sorte, um copo de leite duas vezes por mês).
2 da manhã, hora de dormir, amanhã tem aula 7:30 e reunião de tarde pra discutir o que fazer com a cafeteira quebrada e a falta de dinheiro pra pagar a faxineira da escola.

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