Roraima

Saí da aula, calor sufocante, sinusite explodindo e uma leve tontura que sempre acompanha nesses momentos. Andando no mesmo ritmo, ao meu lado, foi essa menina – que eu nunca antes tinha visto.
Ela reclamou do calor e eu a olhei surpresa, não sou boa em conversar com estranhos. Reclamei do calor e sorrimos, ainda andando lado a lado.
– Viu que ocuparam o 17? – ela perguntou numa voz cautelosa de quem está tentando ver em que solo está pisando.
– Vi! No meu curso ainda não teve assembleia, mas acho que vai ser decidido pela ocupação também.
Ela sorriu, mas foi um desses sorrisos que trazem um pouco de tristeza e cansaço. Me contou que o pessoal da saúde não iria ocupar, que ela não conseguia entender – especialmente com o quanto o SUS seria afetado.
Seguimos pela Roraima, lado a lado, desconhecidas, olhando para frente e discutindo o futuro.
Confesso que quando ela falou comigo eu tinha outros pensamentos, estava calculando o quão assadas estariam minhas coxas até chegar em casa, pois o shorts estava subindo e eu tenho preguiça de ficar arrumando-o a cada 30 passos. Com a conversa dessa completa desconhecida, esqueci o calor, esqueci as coxas assando, esqueci de detestar as árvores floridas no caminho de casa que sempre me dão alergia.
Não perguntei o nome dela e nem ela perguntou o meu, mas trocamos informações bem mais profundas, trocamos ideias e trocamos um pouco de quem nós somos. Dividimos medos e anseios de uma forma que pode não ocorrer nem com gente com quem a gente convive.

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