A quem me faz não querer sonhar

Algumas noites, antes de dormir, nos imagino deitadas juntas, conversamos sobre o que fizemos durante o dia, você está estressada e eu seguro sua mão.
Quando sonho com você é isso que sempre se repete, nossas mãos unidas, dedões deslizando em um carinho distraído e conversamos sobre coisas sérias ou bobagens.
Você é um calorzinho gostoso no meu peito, um arrepio que me sobe pelas costas, borboletas no meu estômago, o vento passando por meus cabelos.
Amá-la é um constante desejo de uma rotina, de poder dizer que sinto sua falta e uma série de xingamentos que trariam sorrisos aos seus lábios.
Numa noite dessas sonhei estávamos naquele lugar onde nos encontramos pela primeira vez, você em pé e eu sentada, quase um flashback. Você falava que queria viajar, os seus olhos brilhando, cheios de planos, cheios de sonhos e eu só conseguindo pensar que gostaria de vê-la sorrir assim por muito tempo.
Cheguei ao ponto de desejar a discórdia, poder discutir com você sobre coisas imbecis e pequenas. Você deixou a toalha molhada em cima da cama, desliga a droga da luz da sala quando sair de lá.
Quando essa música toca eu desejo poder abraçá-la, sentir seus lábios em meu pescoço e ouvir sua voz sussurrando que as coisas não são tão ruins quando estamos assim.
Nos finais de semana dividiríamos algumas cervejas, assistiríamos algum filme (nenhum que você escolhesse porque eu sou muito melhor nisso), talvez viajássemos para algum lugar, passaríamos a noite em uma barraca ou dormindo sob as estrelas (torcendo para que a previsão do tempo estivesse certa e não chovesse).
Quanto mais o tempo passa mais alto soa em minha cabeça um poema de Mary Oliver:

The Summer Day

Who made the world?
Who made the swan, and the black bear?
Who made the grasshopper?
This grasshopper, I mean-
the one who has flung herself out of the grass,
the one who is eating sugar out of my hand,
who is moving her jaws back and forth instead of up and down-
who is gazing around with her enormous and complicated eyes.
Now she lifts her pale forearms and thoroughly washes her face.
Now she snaps her wings open, and floats away.
I don’t know exactly what a prayer is.
I do know how to pay attention, how to fall down
into the grass, how to kneel down in the grass,
how to be idle and blessed, how to stroll through the fields,
which is what I have been doing all day.
Tell me, what else should I have done?
Doesn’t everything die at last, and too soon?
Tell me, what is it you plan to do
with your one wild and precious life?

Em tradução livre (muito livre, inclusive):

(O dia de verão

Quem fez o mundo?
Quem fez o cisne e o urso negro?
Quem fez o gafanhoto?
Este gafanhoto, quero dizer-
este que se lançou grama afora,
este que está comendo açúcar da minha mão,
que está movendo suas mandíbulas para frente e para trás ao invés de para cima e para baixo-
que está olhando ao redor com seus olhos enormes e complexos.
Agora ela levanta seus pálidos antebraços e cuidadosamente lava sua face.
Agora ela abre bem suas asas e flutua.
Eu não sei exatamente o que é uma oração.
Eu não sei como prestar atenção, como cair
na grama, como ajoelhar na grama,
como ser ociosa e abençoada, como passear pelos campos,
que é o que eu tenho feito o dia todo.
Conte-me, o que mais eu deveria ter feito?
Não é verdade que, no fim, tudo morre cedo demais?
Conte-me, o que é que você planeja fazer
com a sua única, selvagem e preciosa vida?)

Eu finalmente entendo o que um dia alguém me disse: eu odeio ter sonhos bons com você, porque chega um momento em que eu preciso acordar e encarar a realidade.

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