Amor

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Hoje minha rua está silenciosa e vazia. Não passam carros, ninguém ligou o som alto em frente à minha janela, não estão soldando ou cortando nada na oficina que fica aqui do lado, as pessoas não estão atendendo seus telefones aqui e gritando por 2 ou 3 minutos. O sol aquece tudo, ilumina. Abro a janela, ainda na cama, pra deixar o vento calmo entrar.
A manhã parece ser de domingo, pede por uma bergamota e uma soneca no sol.
Sobre a mesa uma pilha de coisas pra ler, fazer, escrever, revisar, traduzir. Sobre a cama eu e o computador – de onde  sai a voz de Elvis em volume baixo.
Tenho pensado muito em o que significa amor e amar alguém, nas coisas que dizemos para nós mesmos por medo de ficar sozinhos, em todas as coisas que pensamos ser amor e, mais tarde, descobrimos não ser.
Sou um tipo chato de pessoa que se apega em detalhes, que se apaixona por um sorriso, por um olhar, por um pequeno gesto de ternura, por coisas que observo quando as pessoas não estão olhando. Cultivo momentos que ninguém lembra, guardo detalhes não importantes, presto atenção a coisas irrelevantes e, o pior, lembro de coisas ditas em conversas banais.
Gosto de observar as pessoas quando elas olham para outras coisas e outras pessoas, gosto de ver como as pessoas conversam com seus amigos.
Gosto de um momento muito específico da manhã – um ou dois minutos antes de o sol sair, quando já há luz, mas ainda não se pode ver de onde ela vem. Amor, para mim, é isso, é essa luz que ninguém sabe de onde vem, que está ali nos detalhes que ninguém percebe, senão uma pessoa apaixonada, é um admirar coisas que jamais teriam importância ou significado e não saber explicar o motivo daquilo ser tão gostoso de se ver ou de se viver. Seria pelo todo? Pelos detalhes? Pelas ilusões e expectativas que nós mesmos criamos? Ou seria por algum motivo muito mais simples que esquecemos de levar em consideração?
Já a rua vazia, com cara de domingo, fortemente iluminada pelo sol é o sentimento que duas pessoas constroem quando se amam, é brilhante, intenso, exige muito calor, muita calma e, especialmente, que uma pessoa pare para observar os detalhes gostosos da outra – mesmo que exista uma pilha de coisas para serem feitas sobre a mesa.

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